Domingo, 1 de Junho de 2008
Da Cidadania à Diáspora
Decorreu nos passados dias 28-29 de Maio, na Universidade Lusófona, o
II CONGRESSO INTERNACIONAL DA ÁFRICA LUSÓFONA, onde tive a oportunidade e honra de moderar um Painel, com o ”enquadramento” que aqui se reproduz:
“Cidadania, Diversidade, Cultura, Migrações e Diáspora”
Parafraseando algures Torga: - Que grande título para um Painel!…
Ainda bem que não se refere à “Civilização”. Termo que, devido às vicissitudes a que esteve ligado, a lembrar a “democracia” que Bush está a espalhar pelo mundo, à bomba, desde há muito que eu propus que fosse posto no caixote do lixo da história.
E já que vamos falar da temática referida, permitam-me que evoque a chegada da primeira armada portuguesa à Índia, em 1498, fez, nos dias 20/21 de Maio, 510 anos. E que lembre o degradado e quase ignorado João Nunes, o primeiro da tripulação a pôr o pé em terra de Calecut, que, por uma das raras casualidades do destino, ali encontrou o seu amigo tunisino Monçaide (a quem o próprio Camões dedica várias estrofes, no Canto Sétimo dos Lusíadas). E a conversa aconteceu mesmo em castelhano, com o tunisino a querer saber o que estavam ali os portugueses a fazer, ao que João Nunes terá respondido que “vimos para buscar a cristianos y la especia” (“vimos buscar cristãos e especiaria”). Para mim, a frase mais emblemática de toda a história dos “achamentos” portugueses.
Este diálogo entre o tunisino Monçaide e o português João Nunes, transcrito pelo autor do Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, é bem o símbolo do primeiro confronto entre uma hegemonia, que durante séculos se afirmou por todo o Oriente, com as suas ramificações pela Europa, através de Génova e Veneza, e uma anti-hegemonia emergente, com o seu epicentro em Lisboa, que, por obra e graça da hegemonia papal, com o Tratado de Tordesilhas, passou a ter metade do mundo como limite.
A generalidade dos autores faz remontar o fenómeno da globalização dos nossos dias aos Descobrimentos Portugueses, de que a chegada de Vasco da Gama à Índia é bem o “ex-libris”.
No entanto, o saudoso André Gunder Frank, que, se não fora o inesperado problema grave de saúde, era para nos dar a honra da sua muito estimada presença na ULHT, na X Semana Sociológica, lançou o repto, já lá vai mais de uma década, ao questionar se o Sistema Mundial teria 500 ou 5.000 anos [1].
Aproveitando a deixa, permitam-me que eu pergunte se a globalização terá 500, 5.000, 50.000, ou 100.000 anos? O mesmo é questionarmo-nos se a globalização não será tão antiga como a própria humanidade.
Pessoalmente sou de opinião que o homem é natural/potencialmente global. Naturalmente, também, que as formas/potencialidades da globalização, ao longo da história, foram sempre bem diferentes. Como multivariadas são a “Cidadania, Diversidade, Cultura, Migrações e Diáspora”, que constituem o tema deste Painel, nesta Lisboa, “grande cidade de muitas e desvairadas gentes”, no dizer de Fernão Lopes.                                                                            
Manuel Antunes
 
_____________
[1] Cf. André Gunder Frank; Barry K. Gills, The World System: Five hundred years or   five thousand, London / N. York, Routledge, 1993.
 


publicado por MA às 23:32
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